Ontem (25/06/2021) fui a um supermercado aqui da cidade Sorriso (Nova Andradina-MS). Eis que me deparo, na saída, pois na entrada eu não tinha me dado conta, não vi ou não quis ver, ou o cartaz era invisível. Invisível por quê? Porque se trata de um material de ampla divulgação, de uma dessas campanhas do agasalho filantrópicas que a pseudo burguesia adora fazer para pagar parte dos seus pecados, afinal dar aos pobres é sinal de fraternidade, segundo manda os líderes religiosos. Invisível porque o homem que está no cartaz é um negro e velho associado a um cachorro. A expressão de ambos cão e homem negro foram meticulosamente trabalhadas para que fossem dignos de pena, de dó; tentando passar a imagem de pobres coitados dependentes da caridade de quem os detesta – como dizia Cazuza. E desta maneira a pseudo burguesia filantrópica vai operando maquinalmente dando esmolas no lugar de buscar fazer justiça social, no lugar de eleger políticos que tem empatia ou gostam da vida.
Voltando à imagem do preto velho, pobre, desclassificado, subjugado e humilhado. Isso parte de uma tática, de operação de guerra estabelecida pela burguesia capitalista neoliberal em criar, recriar e manter o racismo estrutural, isso acontece porque é uma mecanismo do Estado reafirmada pelas instituições, mercados, para colocar e manter o negro em um determinado lugar na sociedade – junto a uma lata de lixo, sentadinho num canto, na sarjeta, assemelhando-se a um cão, faminto, expressão triste, dolorida.
Ato contínuo, agora imaginem uma criança negra vendo essa imagem! Qual orgulho essa criança terá de ver suas ancestrais, sua história e sua memória sendo reproduzida nessas condições degradantes de sobrevivência?
Mandei a imagem para uma amiga que mora em São Paulo – mulher, negra, humanista, antirracista e antifascista. Assim ela reflete:
Um idoso negro associado a um cão, é a imagem que divulga a parceria de um grande Mercado com a Campanha do agasalho em Nova Andradina, Mato Grosso do Sul. Aqui em São Paulo, essa imagem era comum no centro da capital, em especial na Praça da Sé, nas escadarias da igreja, como um cartão postal da terra da garoa, maior Metrópole da América Latina. Essa grande cidade registrou em janeiro de 2020, antes da pandemia da COVID-19, 25 mil pessoas em situação de rua, conforme informa o censo da Prefeitura; o que visivelmente aumentou em quantidade e distribuição geográfica também. Hoje nas periferias tornou-se familiar e comum pessoas como na imagem do mercado, denunciando o racismo estrutural e suas problemáticas econômicas, políticas e subjetivas de norte ao sul desse país.
O Censo 2021 que é a principal fonte de coletas de dados sobre as condições dos domicílios e dos seus moradores no Brasil, foi cancelado por “falta de orçamento”, e fica a certeza de que ele confirmaria as péssimas, crescentes e assustadoras condições da maioria da população brasileira, salvo claro as que têm essa moradia, sobretudo as mais vulneráveis como as negras, as mulheres e os idosos como na foto do mercado. Essas condições foram exacerbadamente escancaradas, durante a pandemia da COVID-19, que requer higiene, acesso a água, saneamento básico, saúde de qualidade, uso de máscara, distanciamento social e a vacinação, que é assunto para outra ocasião, ou melhor um livro talvez no fim da CPI.
Em minha singela concepção, penso que sanar essa situação é algo surreal, utópico, uma dívida incalculável e crescente com os negros, decretada com a “canetada abolicionista” da Princesa Isabel, em 13 de maio de 1888, há 133 anos, data não comemorada, reconhecida, homenageada nas grandes mídias. Como é o caso do dia 18 de junho de 1908, por exemplo, com a chegada da imigração japonesa no Brasil. O que você acharia se no lugar desse homem negro fosse um velho japonês? Não pode né? Eu concordo...
Mal sabia a Princesa Isabel, que sua “canetada abolicionista”, há 133 anos, deixaria às margens da vulnerabilidade social, econômica e racial, uma população invisível, que trava uma luta injusta em busca de direitos básicos como condições de moradias, saúde, emprego e educação. Aliás te convido a pensar sobre o “13 de maio”, data da abolição da escravatura no Brasil, comparando com o dia 18 de junho de 1908, data da imigração japonesa, por aqui lembrada e comemorada pela mídia com muita gratidão, reconhecimento, respeito, tudo ao contrário do “13 de maio”.
Após essa imagem, muitas observações e reflexões transbordam em minha mente, uma delas é a solidariedade e fraternidade da sociedade civil, (empresas privadas, terceiro setor e até governamentais) que cresceram e são de suma importância no enfretamento dessa situação. Isso com o claro objetivo de tentar reparar os danos causados pela destruição das politicas públicas de inserção dos pobres e pretos na economia. Assim essa burguesia tira com uma mão e dá as migalhas com a outra. É obrigada fazer campanhas imorais, usando homens negros como objetos de miserabilidade. Na realidade esse homem negro velho que está na imagem é o retrato mais fiel do projeto protofascista de exclusão racial. Mas também revela como eles pensam e veem os negros velhos, exatamente assim como um miserável que precisa da piedade deles.
Quanto a ação promovida pelo mercado “parceria que aquece” é válida e plausível, sinais de que a sociedade vem trabalhando para a construção de dias melhores. Porém seria melhor empregar mais negros em seus quadros de funcionários, e principalmente mulheres negras que, via de regra, são arrimo de família. Mas principalmente retirem esse homem negro e velho daí.
**Professor Adjunto - UFMS/CPNA - Curso de História
Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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